Por que algumas coisas precisam ser ditas

Existe uma frase simples que, por muito tempo, passou por mim sem que eu realmente parasse para analisar: o óbvio precisa ser dito.


Eu a ouvi algumas vezes enquanto acompanhava a história da Bruna e do Dalton, no chá dos padrinhos, no ensaio, no casamento… e depois, nos novos capítulos da vida. Ela estava ali, presente, mas ainda sem ainda entender o real sentido dela. Até que, em um momento, ela começou a ser obvia.

A gente vive acreditando que o que é óbvio pra nós também é óbvio pro outro. Que certos sentimentos são tão claros que dispensam palavras. Que algumas verdades estão tão expostas que dizer seria quase redundante. Mas essa certeza costuma ser mais confortável do que verdadeira.

Cada pessoa enxerga o mundo a partir da própria história. Da criação que teve, da cultura em que cresceu, das dores e medos que carrega e dos acertos que construiu ao longo do caminho. O que parece simples pra um pode ser complexo pro outro. O que soa claro pra quem fala pode chegar distorcido pra quem escuta. Não por falta de interesse, mas por diferença de repertório emocional e cultural.

É por isso que essa frase, apesar de soar dura, não fala sobre a ignorância. Ela não diz que o outro “não entende”. Ela fala sobre responsabilidade emocional. Sobre comunicação. Sobre sinceridade!

Dizer o óbvio não é subestimar o outro, é respeitar o vínculo. É entender que relacionamento não é adivinhação, é diálogo. Que amar não é esperar que o outro perceba, mas ter coragem de colocar em palavras aquilo que está no coração. Seja bonito ou desconfortável. Seja fácil ou difícil de dizer.

Existe um cuidado silencioso em falar. Um gesto de maturidade em explicar. Uma forma de carinho em repetir, se for preciso. Repetir sem exaltação, sem impaciência, sem raiva de ter que dizer tudo outra vez.

Talvez porque repetir também seja um exercício de amor. Jesus fez isso inúmeras vezes. Repetiu ensinamentos, contou a mesma verdade por caminhos diferentes, explicou aos discípulos mais de uma vez aquilo que ainda não tinham conseguido compreender. Não por falta de inteligência deles, mas porque entender leva tempo. Porque cada um amadurece no seu ritmo.

A paciência, nesse sentido, também é comunicação. É escolher não desistir do diálogo só porque ele exige constância. É compreender que repetir não é perder tempo é sustentar o vínculo.

Talvez o verdadeiro sentido dessa frase esteja justamente aí: não no óbvio em si, mas na escolha de não deixar sentimentos soltos no ar. De não confiar apenas nas suposições. De não tratar como evidente aquilo que, para o outro, pode nunca ter sido dito.

No fim, relações não se sustentam no que parece claro.
Elas se sustentam no que é dito com verdade, escutado com presença e acolhido com cuidado.

E talvez seja por isso que, mesmo sendo tão simples, o óbvio ainda precise ser dito.

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