Na língua portuguesa, usamos uma única palavra para definir algo imenso: amor.
Dizemos “eu te amo” para um parceiro, para a família, para amigos, para a fé, para a vida. A palavra é a mesma, mas a experiência emocional por trás dela raramente é igual.
Talvez por isso o amor, muitas vezes, pareça confuso. Em alguns momentos é intenso e arrebatador; em outros, silencioso e constante. Difícil de explicar e, às vezes, ainda mais difícil de viver.
Os gregos antigos já percebiam essa complexidade. Para eles, o amor não era um sentimento único, mas um conjunto de experiências diferentes, cada uma com sua própria natureza. Por isso, deram nomes distintos ao que hoje tentamos resumir em uma única palavra e muitos desses nomes atravessaram o tempo e ainda vivem na nossa língua.
Éros: É o amor do desejo e da atração. Está ligado à paixão, ao encantamento inicial e à energia que aproxima os corpos. É intenso, impulsivo e muitas vezes arrebatador o tipo de amor que acelera o coração e nos tira do eixo. Não por acaso, deu origem a palavras como erótico e erotismo, associadas ao impulso e à força do desejo. Geralmente, é o ponto de partida das relações, mas pode ser instável quando existe sozinho.
Philia: É o amor da amizade, da afinidade e da conexão emocional. Surge quando há admiração, respeito, confiança e troca verdadeira. É o amor de quem escolhe estar junto, conversar, compartilhar ideias e caminhar lado a lado. Está presente em palavras como filantropia (amor ao ser humano), bibliófilo (amor aos livros) e cinéfilo (amor pelo cinema), revelando um amor que se expressa pela apreciação e pelo vínculo. Em relações duradouras, é muitas vezes a philia que sustenta quando o fogo do éros diminui.
Ágape: Representa o amor incondicional e altruísta. Um amor que acolhe, cuida e se doa sem exigir retorno. Está profundamente ligado à compaixão, à empatia e ao perdão, sendo muito presente em contextos espirituais e no ideal de amor divino. Diferente dos outros, permanece quase intacto no vocabulário, como símbolo de um amor que transcende o interesse pessoal.
Storgé: É o amor familiar, natural e protetor. Nasce da convivência diária, do cuidado contínuo e dos laços construídos com o tempo. Nem sempre é intenso ou romântico, mas é profundo, seguro e silencioso, tão essencial que raramente sentimos a necessidade de nomeá-lo. Está presente nas relações entre pais e filhos, irmãos e em vínculos que se tornam família.
Pragma: É o amor maduro e consciente. Não nasce do impulso, mas da escolha. É construído com o tempo, através do diálogo, da paciência e da adaptação. Pragma é o amor que entende que nem todos os dias são fáceis, mas que ainda assim decide permanecer. Ele se reflete em palavras como pragmático e pragmatismo, lembrando que amar também é agir, sustentar e escolher diariamente.
Ludus: É o amor leve e brincalhão. Está presente no flerte, no jogo da conquista e na curiosidade pelo outro. Não carrega grandes promessas nem profundidade imediata, mas traz leveza, prazer e espontaneidade. Sobrevive em termos como lúdico, associados ao sonhar, imaginar com inocência, à brincadeira e à descoberta, sendo comum nas fases iniciais das relações.
Philautia: Por fim, é o amor por si mesmo. Quando saudável, se manifesta como autocuidado, autoestima e respeito pelos próprios limites. Quando ausente, pode gerar dependência emocional; quando exagerado, pode se tornar egoísmo. É a base que sustenta a forma como nos relacionamos com todos os outros tipos de amor.
Compreender essas diferentes formas não é uma tentativa de rotular sentimentos, mas de dar clareza às experiências que vivemos. Nem todo amor precisa ser intenso como Éros. Nem toda mudança significa o fim. Às vezes, o amor apenas muda de forma e reconhecer isso pode ser um dos maiores atos de maturidade emocional.
GOSTOU? Dá um like
Comentários
Escreva um comentário antes de enviar
Houve um erro ao enviar comentário, tente novamente